Archive for July, 2005

July 24th 2005

Me acomodando

Bom, cheguei finalmente. Depois de carregar a mala pra cima da escada e quase morrer no processo, finalmente cheguei ao meu destino.
Vale explicar que a casa que eu vou ficar eu achei no craigslist, que e o maior site de classificados aqui da area (da para achar qualquer coisa…), liguei para o cara, perguntei se ele era um serial killer, ele falou que nao, ele perguntou se eu era, eu falei que nao (afinal, ja tinha respondido essa pergunta no formulario do visto, nao podia mudar minha resposta agora) e fechamos o negocio.
O cara e de Hong Kong e esta aqui ha uns 20 anos, arquiteto (o que e um perigo, morando em SF, mas logo no primeiro dia passou uma japinha aqui e o cara levou ela para um canto escuro, entao dormi com a porta destrancada mesmo). O sujeito joga capoeira, curte MPB, todo ligado na cultura brasileira. Ou seja, deve ter se decepcionado tremendamente quando o brasileiro que chegou fui eu… Bom, nao se pode agradar gregos e goianos…
Depois de substituir a minha coluna vertebral por uma usada que eu comprei no craigslist, o sujeito, alias, chama-se Peter, me carregou para bater um prato num restaurante mexicano aqui perto. Lancei um burrito e voltei para casa feliz da vida, com os meus dentes novos cheios de feijao.
Aqui mora uma mulher tambem, no terceiro quarto, mas como ela torceu o tornozelo minutos antes da minha chegada, ela basicamente fica no quarto sentido dores (agora ela ja arrumou umas muletas e participa mais da vida da casa, mais sobre isso na sequencia). O Peter entao me explicou que os gatos (sao 2, um casal) sao meio ariscos, entao era para tomar cuidado. Beleza entao… E nao adianta perguntar porque nao sei o nome dos gatos. Nao tem utilidade nenhuma saber nome de gato, ja que eles nao respondem mesmo, so iria gastar preciosas sinapses guardando essa informacao.
Quando a acima mencionada japinha passou por aqui, o Peter sumiu e aproveitei para chapar.

No dia seguinte, as 0545 da manha, ja estava rolando na cama… Quatro horas de fuso horario e duro… Fui tentar trocar meus travelers checks, mas fui rejeitado mais uma vez… Diacho. Voltei para casa, cheguei no site do Amex (nao farei link porque eles nao merecem) e fui ate o lugar onde, supostamente, eles trocariam os meus checks. O lugar? O famigerado Bank of America… Bom, la tambem nao e muito simples para trocar, porque quem nao tem conta tem limite para trocar… Cada dia esses travelers me parecem um negocio melhor…
Aproveitei e abri a conta la mesmo (incrivelmente so trabalham asiaticos nessa agencia, me senti na China) e passeei um pouco pela redondeza (Downtown SF).

Na primeira esquina, uns malucos fazendo uma apresentacao de break. Interessante.
Na proxima, uma mendiga levou um bico de um executivo que estava bebendo cafe enquanto andava carreganda uma pasta e uma mala, daquelas de terno, e se revoltou, xingou o cara de tudo que podia.
Atravessei a rua e fui na Social Security Office para ver o que tem que fazer para conseguir um social security. La dentro, varios mendigoes e um cara vestido de Carlitos… Hummmmm
Resolvi voltar para casa e no caminho, cruzei com uma loura da minha altura que devia pesar uns 110 quilos, toda musculosa. Sera que ela era ele?? Aqui em SF, nunca se sabe…

Voltei para casa. Por hoje estava bom de passear.
Bati um rango e me dirigi a minha cama…

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July 23rd 2005

Primeiros movimentos em SF

Bom, prosseguindo entao…
Peguei o carro, um monstro gigantesco (olhando pelo retrovisor interno, ele parecia nao acabar nunca), e parti na direcao de Stanford, para encontrar a Renata. Obvio que antes de vir para ca eu tinha pegado todas as informacoes sobre como chegar na biblioteca de Stanford no Mapquest. E la fui eu, tranquilao, passeando pela auto Estrada ate Stanford.
O cenario muda bastante ate chegar la, partindo de uma cidade envolta em nevoa para um sol animal em Palo Alto, pessoal de conversivel passeando com a capota abaixada e por ai vai.

Alias, uma pequena nota. Eu ja sabia que Palo Alto era um lugar onde a galera e cheia da bunfa, empresas de venture capital em todos os cantos e tal. So que dando uma volta pelo campus, em 15 minutos, eu passei, ou melhor, cruzei com, 1 Ferrari, 4 Porsches e umas 10 BMW Z4… Nada a declarar…

Obviamente as minhas informacoes sobre como chegar na biblioteca nao serviram de quase nada, ja que a rua que eu planejava pegar esta fechada para obras e Stanford parece a Tijuca, perdeu uma entrada amigo, dancou, porque nao existe quarteirao para dar a volta… Depois de temporariamente nao ter exata certeza de onde eu estava, encontrei a Renata e pronto.
Larguei 35 quilos de bagagem com ela, fomos comer. Estava tudo pronto para irmos em um restaurante, mas no caminho passamos pelo Arby’s e nao resisti, levei a Renata para comer rosbife…
Com a barriga cheia, deixei a Renata na biblioteca de volta e tomei o rumo de SF.

Como o dono da casa onde eu vou ficar nao chegaria em casa ate umas 1800 (eram 1430), resolvi dar uma volta pela cidade. Passei na frente da casa do cara (bonitinha, perto de um parque), passei no college onde eu vou estudar, fui ate o mar (sempre maneiro ver um oceano diferente) e comecei a sentir um pouco de cansaco (nao dormia de verdade ha mais de 24 horas), entao voltei para o aeroporto, devolvi o carro e fui tentar trocar meus travelers checks (ja que o Banco Central nao tinha dolar para vender em especie). O bom e que dessa vez descolei um carrinho solto no estacionamento e economizei 3 dolares… nao e nada, nao e nada, nao e nada mesmo…

Nunca mais comprarei esta bosta… Um saco, ninguem troca, tem limite para trocar, tem que assinar um por um… Diacho… Consegui trocar so 300 doletas e desisti.
Liguei para casa, falei com a familia e fui procurar um lugar para deitar e descansar.
Como nao estava a fim de mandar uma de mendigo, nao deu para deitar. Sentei todo esparramado, terei o tennis, coloquei os pes em cima da minha mala gigantesca e voltei ao iPod (nao estou em condicoes de ler nada).
Quando deu 1830 liguei para o cara, ele estava em casa e parti.

Resolvi pegar um taxi, apesar do BART (Bay Area Rapid Transit) parar pertinho, nao estava a fim de carregar 40 quilos pela rua, entao peguei um taxi. Aparentemente, em todos os lugares do mundo os taxistas sao a escoria da humanidade. O cara que apareceu para me buscar (ponto de taxi, era so o que me faltava) era todo torto (me lembrou a minha situacao saindo da minha poltrona no voo para SF), quase morreu quando ele achou que eu estava de sacanagem quando disse que a mala estava pesada (eu ia rir muito se o cara tivesse vacado ao pegar a mala) e saiu do ponto a mil. Antes de sairmos do aeroporto ele ja estava a 70 (milhas). Limite de velocidade no local? 25… Maravilha.

Rapidamente (obvio) cheguei em casa e depois de levar a mala para cima da escada (uns 20 degraus apenas), toquei a campainha e cheguei em casa, finalmente.

Tempo total de viagem ate o destino final: 29 horas e 45 minutos… Meu estado era lamentavel…

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July 22nd 2005

Comecando pelo comeco: A Viagem…

Bom, para fazer uma coisa bem feita, vamos comecar pelo comeco de tudo: a viagem ate as Americas.

A saida foi complexa, minha lente estava toda seca, meu olho estava incomodando horrores. Ainda bem que ninguem notou, senao iam achar que eu estava chorando… fala serio…
Fiquei la esperando meu voo, envolto em milhares de adolescentes saindo de ferias (eram 3, atencao: TRES, excursoes partindo no meu voo… maravilha).
Tempo estimado de voo ate Miami: 8:52 minutos. Meu lugar: penultima fileira… oops… logo que entramos, o capitao avisa que o voo esta absolutamente lotado, entao nem adianta pensar em mudar de lugar, dormir esparramado e coisas do genero.
Espaco total para as pernas: 15 centimetros ou menos. Pressinto uma caimbra antes do pouso…
Fiquei so manjando a galera que entrava no aviao para ver quem ia sentar do meu lado. Depois de varios americanos tipicos (gordos, eu quero dizer), sentou um casal de vitoria, espirito santo.
Pergunta do malandro: “sera que a comida e boa?”
Nem precisei perguntar se eles ja tinham viajado de aviao antes….

Decolamos e a comida era horrivel, obvio, mas pelo menos estava quentinha e cheirava bem, entao rolou de comer uma parte significativa. Nao consegui dormir muito, ja que o aperto do aviao estava absurdo. Acho que a American diminui o tamanho entre as fileiras para um tamanho menor que as fileiras da Varig, e tragico.

Como previsto, a sola do meu pe direito comecou a dar sinais de fadiga com umas 5 horas de voo (minha perna esquerda eu consegui esticar algumas vezes pelo corredor). Resolvi fazer um alongamento na area do banheiro e a aeromoca olhou para mim como se eu fosse absolutamente louco.

Vale dizer que os adolescentes tiraram fotos, falaram alto, gritaram e etc durante quase todo o voo.

Finalmente, as 0410 da manha, comecamos a descer. Depois das informacoes de praxe, o capitao deu um mega esporro dos adolescentes. Achei que ele ia chamar todos de subdesenvolvidos, cretinos e panacas, mas ele foi gente boa.
Nessas horas que eu acho que os piratas e que estavam certos. Comecou a encher o saco, vai pra prancha e tchau e bencao…

Mas, voltando ao assunto, pousamos. Putz, minha perna direita nao serve mais para nada. Levou uns 400 metros para eu parar de andar como o Kayser Soze.

Agora para La Imigra. Fui sorteado com o guarda que tem vitiligo…. Na hora comecei a pensar: “nao encara, nao encara, deixa pra la, e normal, nao encara…”. Me controlei, deixei as digitais, tirei a foto (deve ter ficado otima, sem dormir, torto, gripado, nariz escorrendo… maravilha) e fui admitido na America.

Peguei as malas (totalizando incriveis 75 quilos no total – 40 numa mala so) e la fui eu, todo torto, passar pela alfandega. A mulher deve ter tido pena de mim, porque ela deu um risinho, perguntou que diabos era aquilo tudo e mandou um “go right ahead, you look like you could use some rest right now”. Pelo menos a esteira para despachar as malas para a conexao era na saida da alfandega, entao carreguei minha tralha por uns 50 metros apenas. Alguma coisa tinha que dar certo…

Olhei para o relogio: 0530. Meu voo para SF saia as 0745… Otimo, faminto, cansado, meio doidao (tomei uns remedios no voo para a gripe) e tenho mais 2 horas e pouco de espera. Saquei minha camera (com medo que algum guarda resolvesse usar a minha passagem para Guantanamo), tirei 3 fotos e comecei a sentir tudo rodar… Oops, guardei a camera e me larguei no chao entre uma mae e filho hispanicos dormindo no chao e um executivo com cara de que estava viajando ha uns 10 dias com a mesma roupa e jogava Free Cell no computador.

Resolvi andar um pouco. Liguei para a Dani, avisei que nao tinha sido despachado para Cuba e comprei uma agua. Voltei e o moleque tinha acordado e estava aos berros querendo acordar a mae, que prontamente acordou, deu-lhe um esporro em espanhol (se nao me engano rolou uma ameaca de acabar com a raca do moleque) e tudo voltou ao normal. O executivo ainda nao tinha conseguido ganhar nem uma vez no Free Cell, burrao…

Entrei no voo para SF e dessa vez nao teve jeito, peguei uma gorda e um gordo para sentarem comigo… Pelo menos fiquei no corredor. A cadeira, que ja era pequena, diminui, visto que a gorda roubou uns 30% do espaco e eu fiquei com nojo das banhas suadas encostando no meu braco. Quase pedi para ir no compartimento de carga, considerei uma escapada no estilo “Prenda-me se for capaz”, mas aparentemente nao e mais tao facil desaparafusar a privada do banheiro…

Passou um filme ridiculo com a Sandra Bullock (wabba teria adorado, ja que ela aparece escassamente vestida em boa parte do filme), mas o jack do meu fone estava encoberto pela banha (nessa hora a monstra estava dormindo) e preferi ouvir o meu iPod…

Finalmente, depois de looooooooooooongas 5 horas, chegamos em SF. Quase sai do aviao antes de parar para fugir da gorda, mas me controlei.

Se no aeroporto de Miami eu so ouvia espanhol, aqui em SF so se ouve chines (ou qualquer coisa parecida). Parece ate que chegamos na Asia.
Peguei a minha tralha mais uma vez (estava craque ja, ski num ombro, snow no outro, mochila nas costas e o resto no carrinho). Em SF, para pegar carrinho, tem que pingar 3 dolares… Pelo menos deu para passar o cartao e tirar o carrinho. Diabo de capitalismo selvagem…

Estava pensando em pegar um taxi ate o lugar para buscar o carro mas o aeroporto daqui tem um trenzinho (algo como aquele bagulho que circula o Barra Shopping) que voce pode entrar com o carrinho e ainda por cima se conecta com o trem e o metro da cidade. Se eu nao estivesse carregando 500 quilos de bagagem, ate que poderia ser uma alternativa.

Fui imediatamente para Budget pegar o carro que eu tinha alugado. Chegando la, me senti no Brasil. Fila enorme, seguida do classico: “por favor tenham paciencia, pois o sistema caiu”.

Comecei a ser zoado pelo pessoal da fila…

Uma francesa comeca a brigar no orelhao ao meu lado, dizendo que nao fez 2 reservas coisa nenhuma e que se nao estornarem, ela manda um queijo de cabra para a casa do operador e esconde debaixo da cama dele ate a casa ficar empesteada. Magicamente, a segunda reserva e cancelada… Queijo de cabra e sinistro…

Me enchi no meio da fila e comecei a alongar (estou pior que o Kayser Soze no presente momento, quase o Quasimodo) e o pessoal da fila para de me zoar, achando que eu devo ser louco mesmo… A mulher na minha frente da fila fala ao mesmo tempo em 2 celulares, escreve num caderno e ainda briga com a mae, que esta com uma pinta de que ela ja andou pelo bar hoje…

Saio da fila para ligar para a Renata, perco uns 3 quarters por pura incompetencia para usar um orelhao de pais desenvolvido e finalmente marcamos de nos encontrar em Stanford.

Finalmente consigo meu carro. Um Ford Explorer gigantesco. Meus 15.000 quilos de bagagem cabem sem maiores problemas. O carro e imenso, um monstro.

Pronto, estou pronto finalmente. Ligo o carro, passo por aqueles trecos de estacionamento que explodem seus pneus (varios avisos para nao dar re) e saio do aeroporto.

Tempo total de viagem ate o momento:
Sai de casa as 1715, hora do Rio, sao 1240, hora de SF. Trocando em miudos, 23 horas e 25 minutos para chegar ate aqui. Comeco a pensar em comer…

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