Bom, para fazer uma coisa bem feita, vamos comecar pelo comeco de tudo: a viagem ate as Americas.
A saida foi complexa, minha lente estava toda seca, meu olho estava incomodando horrores. Ainda bem que ninguem notou, senao iam achar que eu estava chorando… fala serio…
Fiquei la esperando meu voo, envolto em milhares de adolescentes saindo de ferias (eram 3, atencao: TRES, excursoes partindo no meu voo… maravilha).
Tempo estimado de voo ate Miami: 8:52 minutos. Meu lugar: penultima fileira… oops… logo que entramos, o capitao avisa que o voo esta absolutamente lotado, entao nem adianta pensar em mudar de lugar, dormir esparramado e coisas do genero.
Espaco total para as pernas: 15 centimetros ou menos. Pressinto uma caimbra antes do pouso…
Fiquei so manjando a galera que entrava no aviao para ver quem ia sentar do meu lado. Depois de varios americanos tipicos (gordos, eu quero dizer), sentou um casal de vitoria, espirito santo.
Pergunta do malandro: “sera que a comida e boa?”
Nem precisei perguntar se eles ja tinham viajado de aviao antes….
Decolamos e a comida era horrivel, obvio, mas pelo menos estava quentinha e cheirava bem, entao rolou de comer uma parte significativa. Nao consegui dormir muito, ja que o aperto do aviao estava absurdo. Acho que a American diminui o tamanho entre as fileiras para um tamanho menor que as fileiras da Varig, e tragico.
Como previsto, a sola do meu pe direito comecou a dar sinais de fadiga com umas 5 horas de voo (minha perna esquerda eu consegui esticar algumas vezes pelo corredor). Resolvi fazer um alongamento na area do banheiro e a aeromoca olhou para mim como se eu fosse absolutamente louco.
Vale dizer que os adolescentes tiraram fotos, falaram alto, gritaram e etc durante quase todo o voo.
Finalmente, as 0410 da manha, comecamos a descer. Depois das informacoes de praxe, o capitao deu um mega esporro dos adolescentes. Achei que ele ia chamar todos de subdesenvolvidos, cretinos e panacas, mas ele foi gente boa.
Nessas horas que eu acho que os piratas e que estavam certos. Comecou a encher o saco, vai pra prancha e tchau e bencao…
Mas, voltando ao assunto, pousamos. Putz, minha perna direita nao serve mais para nada. Levou uns 400 metros para eu parar de andar como o Kayser Soze.
Agora para La Imigra. Fui sorteado com o guarda que tem vitiligo…. Na hora comecei a pensar: “nao encara, nao encara, deixa pra la, e normal, nao encara…”. Me controlei, deixei as digitais, tirei a foto (deve ter ficado otima, sem dormir, torto, gripado, nariz escorrendo… maravilha) e fui admitido na America.
Peguei as malas (totalizando incriveis 75 quilos no total – 40 numa mala so) e la fui eu, todo torto, passar pela alfandega. A mulher deve ter tido pena de mim, porque ela deu um risinho, perguntou que diabos era aquilo tudo e mandou um “go right ahead, you look like you could use some rest right now”. Pelo menos a esteira para despachar as malas para a conexao era na saida da alfandega, entao carreguei minha tralha por uns 50 metros apenas. Alguma coisa tinha que dar certo…
Olhei para o relogio: 0530. Meu voo para SF saia as 0745… Otimo, faminto, cansado, meio doidao (tomei uns remedios no voo para a gripe) e tenho mais 2 horas e pouco de espera. Saquei minha camera (com medo que algum guarda resolvesse usar a minha passagem para Guantanamo), tirei 3 fotos e comecei a sentir tudo rodar… Oops, guardei a camera e me larguei no chao entre uma mae e filho hispanicos dormindo no chao e um executivo com cara de que estava viajando ha uns 10 dias com a mesma roupa e jogava Free Cell no computador.
Resolvi andar um pouco. Liguei para a Dani, avisei que nao tinha sido despachado para Cuba e comprei uma agua. Voltei e o moleque tinha acordado e estava aos berros querendo acordar a mae, que prontamente acordou, deu-lhe um esporro em espanhol (se nao me engano rolou uma ameaca de acabar com a raca do moleque) e tudo voltou ao normal. O executivo ainda nao tinha conseguido ganhar nem uma vez no Free Cell, burrao…
Entrei no voo para SF e dessa vez nao teve jeito, peguei uma gorda e um gordo para sentarem comigo… Pelo menos fiquei no corredor. A cadeira, que ja era pequena, diminui, visto que a gorda roubou uns 30% do espaco e eu fiquei com nojo das banhas suadas encostando no meu braco. Quase pedi para ir no compartimento de carga, considerei uma escapada no estilo “Prenda-me se for capaz”, mas aparentemente nao e mais tao facil desaparafusar a privada do banheiro…
Passou um filme ridiculo com a Sandra Bullock (wabba teria adorado, ja que ela aparece escassamente vestida em boa parte do filme), mas o jack do meu fone estava encoberto pela banha (nessa hora a monstra estava dormindo) e preferi ouvir o meu iPod…
Finalmente, depois de looooooooooooongas 5 horas, chegamos em SF. Quase sai do aviao antes de parar para fugir da gorda, mas me controlei.
Se no aeroporto de Miami eu so ouvia espanhol, aqui em SF so se ouve chines (ou qualquer coisa parecida). Parece ate que chegamos na Asia.
Peguei a minha tralha mais uma vez (estava craque ja, ski num ombro, snow no outro, mochila nas costas e o resto no carrinho). Em SF, para pegar carrinho, tem que pingar 3 dolares… Pelo menos deu para passar o cartao e tirar o carrinho. Diabo de capitalismo selvagem…
Estava pensando em pegar um taxi ate o lugar para buscar o carro mas o aeroporto daqui tem um trenzinho (algo como aquele bagulho que circula o Barra Shopping) que voce pode entrar com o carrinho e ainda por cima se conecta com o trem e o metro da cidade. Se eu nao estivesse carregando 500 quilos de bagagem, ate que poderia ser uma alternativa.
Fui imediatamente para Budget pegar o carro que eu tinha alugado. Chegando la, me senti no Brasil. Fila enorme, seguida do classico: “por favor tenham paciencia, pois o sistema caiu”.
Comecei a ser zoado pelo pessoal da fila…
Uma francesa comeca a brigar no orelhao ao meu lado, dizendo que nao fez 2 reservas coisa nenhuma e que se nao estornarem, ela manda um queijo de cabra para a casa do operador e esconde debaixo da cama dele ate a casa ficar empesteada. Magicamente, a segunda reserva e cancelada… Queijo de cabra e sinistro…
Me enchi no meio da fila e comecei a alongar (estou pior que o Kayser Soze no presente momento, quase o Quasimodo) e o pessoal da fila para de me zoar, achando que eu devo ser louco mesmo… A mulher na minha frente da fila fala ao mesmo tempo em 2 celulares, escreve num caderno e ainda briga com a mae, que esta com uma pinta de que ela ja andou pelo bar hoje…
Saio da fila para ligar para a Renata, perco uns 3 quarters por pura incompetencia para usar um orelhao de pais desenvolvido e finalmente marcamos de nos encontrar em Stanford.
Finalmente consigo meu carro. Um Ford Explorer gigantesco. Meus 15.000 quilos de bagagem cabem sem maiores problemas. O carro e imenso, um monstro.
Pronto, estou pronto finalmente. Ligo o carro, passo por aqueles trecos de estacionamento que explodem seus pneus (varios avisos para nao dar re) e saio do aeroporto.
Tempo total de viagem ate o momento:
Sai de casa as 1715, hora do Rio, sao 1240, hora de SF. Trocando em miudos, 23 horas e 25 minutos para chegar ate aqui. Comeco a pensar em comer…